Eu me declaro culpado.

Eu me declaro CULPADO!

Se não bastasse o acúmulo de atividades que temos que nos ocupar, somos muitas vezes acometidos pelo sentimento de culpa de cada dia: quando se chega atrasado, chateia um amigo ao negar-lhe um pedido, não comparece ao casamento de um familiar, fala coisas que chateiam um colega, fica pouco tempo com os filhos, compra um vestido caro, não dá um troco para o mendigo, cobra a dívida do tio, acorda mais tarde, falta à aula de inglês, etc.

Não estou aqui para julgar se tais atitudes são adequadas ou não, mas sim refletir o porquê de tantas culpas serem carregadas gratuitamente, isto é, o motivo pelo qual muitas pessoas se sentem tão culpadas ao se comportarem de forma assertiva. Mas de onde vem este sentimento de culpa se não há pelo que se culpar?

Eu me declaro culpadoO sentimento de culpa ocorre quando a pessoa julga seu próprio comportamento como inadequado e espera a punição por este ato. Esta avaliação é feita baseada nos ensinamentos provenientes das relações estabelecidas com pessoas importantes do nosso convívio, ao longo de nossas vidas. Aprendemos não só através do que é dito por essas pessoas, mas principalmente a partir das sanções sofridas quando agimos de forma não aprovada por elas.

Deste modo, a classificação do que é adequado ou inadequado não é uma verdade absoluta, mas subjetiva, passível de erro. Em algumas situações, aqueles que nos ensinaram poderiam estar equivocados sobre seus julgamentos. Em outras, o objetivo era fazer com que nos comportássemos de modo a beneficiar quem ensinava. Lembro-me de uma cena comum: a criança se opõe a fazer alguma coisa e o adulto diz “Que feio! Se você não fizer isso eu vou ficar triste, vou chorar”. Apesar de aparentemente ser uma situação de pouca importância, trata-se de uma forma de obter controle sobre a criança. Em muitas situações este controle é vantajoso somente para o adulto.

E nos dias de hoje? Será que as pessoas do nosso convívio ainda fazem isso conosco? Relações de controle estão presentes na nossa vida o tempo todo. À medida que crescemos continuamos a aprender de formas similares, mas mais sutis, sobre o que devemos ou não devemos fazer e quando não agimos de forma “adequada” sofremos sanções.

Além do aprendizado de como nos sentirmos culpados, aprendemos também como agir para minimizar ou se livrar deste sentimento, no mínimo incômodo. Muitas pessoas buscam alternativas para reparar ou compensar o “erro” que supõem ter cometido, como pedir desculpas a uma pessoa “abusadora” por ter dado limites a ela ou dar presentes em demasia para os filhos para poder compensar a sua ausência. Nestes casos há um alívio momentâneo, mas não há nenhuma reparação e outros problemas podem ser gerados. Ainda, há a atitude adequada, julgada de forma errônea como inadequada, passa a ser evitada prejudicando a própria pessoa.

Por fim, sentir-se culpado diante de uma falta e refletir sobre o erro cometido visando uma mudança de atitude pode ser de grande valia para o amadurecimento do ser humano. Porém, primeiramente é preciso avaliar o código seguido pelo juiz que habita dentro de cada um de nós.

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