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Sobre ericacrepaldi

Formada em Psicologia pela UEL e especialista em Psicoterapia Analítica Comportamental. Atua em clínica particular em Ribeirão Preto/SP.

Para uma ação valiosa

Há tempos estava com a ideia de disponibilizar para meus clientes um instrumento que os incentivasse a registar suas reflexões, construções e aprendizados no processo terapêutico. Espero que nestes livretos sejam escritas lindas histórias de reconstruções, superações e de desfechos valiosos permeados por trajetórias cheias de sentido.

Eu também já separei o meu livreto para registrar as construções realizadas em conjunto com meus clientes que marcam a minha trajetória não só como terapeuta, mas principalmente como pessoa.

E você? Como está escrevendo a sua história? Que aprendizados têm marcado a sua trajetória?

Sentimento de culpa por pendências que nunca acabam

Primeiro obrigação, depois diversão: até quando isso é possível?

Sabe aquela regra “Primeiro obrigação, depois diversão”? Alguns foram disciplinados na infância desta maneira e ao longo da vida obtiveram muitos êxitos ao se comportarem assim. No entanto, com o passar dos anos, torna-se cada vez mais difícil sustentar esta regra. Principalmente, para aqueles que sempre levaram este ensinamento à risca. As demandas aumentam, o dia continua tendo 24 horas, as pendências vão se acumulando e a diversão perde espaço para a culpa sentida pelo não cumprimento das obrigações.

Muitos tentam eliminar o sentimento de culpa se esforçando ainda mais para poder cumprir com todas as demandas pendentes. Este alívio pós tarefa cumprida dá uma falsa sensação de que esta estratégia funciona, mas costuma durar pouco. Novas demandas, novas pendências, novas culpas… e o tempo para diversão, bem como para o descanso, é deixado para depois.

O desafio é saber identificar e respeitar os próprios limites e aprender a escolher de forma assertiva quais “obrigações” serão atendidas e quais ficarão pendentes. Para que possamos viver em equilíbrio é preciso que aceitemos a nossa condição humana de sempre estar em falta com algo e, ainda assim, nos dar o direito à diversão, ao descanso e ao ócio.

Isso acontece com você? Faça as pazes com as pendências do dia-a-dia e divirta-se!

A enganosa relação entre esforço e desempenho

É muito comum frases de motivação que falam sobre o esforço e o sacrifício como meio de se obter êxito. “Todo esforço tem a sua recompensa”, “O segredo do seu sucesso está na constância do seu esforço” “Suor mais sacrifício é igual a êxito”. Quantas dessas frases você já ouviu durante o percurso? Você concorda com elas? Elas fazem sentido para você?

Pois bem, vamos analisá-las! Há, em todas as frases deste tipo, a ideia de que sem dedicação e/ou sem esforço, não há conquistas. Faz sentido, sim! O problema é que há duas outras ideias embutidas nelas que são erradas e que levam a muitos prejuízos.

O primeiro deles é de que TODO esforço tem recompensa. Nem todo! É muito comum ver pessoas que se esforçam apenas pelo esforço em si, ou seja, depositando a conquista somente no ato de se esforçar, sem refletir se esse ato está sendo realizado na tarefa certa e do jeito certo. Há pessoas se esforçando no cultivo de limão, mas querendo colher jabuticaba. E aí, como não consegue colher jabuticaba, acha que foi falta de dedicação no cultivo e não na escolha errada da semente.

O segundo é a mensagem de que a ligação entre desempenho e esforço é uma correlação positiva perfeita, isto é, quanto maior o esforço, maior o desempenho. E acredite, não é bem assim que funciona. Acompanhe meu raciocínio através do gráfico que desenhei.

No ponto A podemos observar que sem esforço, não há desempenho. Entre os pontos A e B, o desempenho aumenta com o esforço. Do ponto B ao C, é preciso de mais esforço para manter o mesmo desempenho. Do Ponto C em diante…

Sendo assim, poderíamos dizer que há um ponto ideal (Ponto B) onde o ato de se esforçar atinge o seu desempenho máximo. No entanto, ao ultrapassar este limiar, a relação muda de direção. Num primeiro momento, acaba sendo preciso muito mais esforço para o mesmo desempenho (entre os ponto B e C); posteriormente, este tende a cair ladeira abaixo, comprometendo a saúde física e emocional, podendo levar até à depressão (D). Fazendo uma analogia, é como se fossemos máquinas: quando excedemos a capacidade, nossa performance começa a diminuir, apresentando falhas e problemas, até que um dia funde o motor.

Para identificar o “ponto B” é preciso autoconhecimento e consciência de que seu ponto é diferente dos demais. Além disso, o “ponto B” é equilíbrio, e não estabilidade. Logo, deve ser perseguido constantemente, dia-a-dia, necessitando de engajamento em diferentes desafios que permeiam as dificuldades particulares responsáveis pelo afastamento deste ponto.

Portanto, nem todo esforço tem a sua recompensa e nem todo sacrifício vale à pena.

É melhor prevenir, remediar ou deixar pra lá?

Tenho receio de ditados e de frases prontas. Eles podem ser muito apropriados em determinadas situações, porém em outras… um desastre. É preciso contextualizar e evitar regras generalizadas. Cada caso é um caso.

É muito comum perceber os prejuízos que as sentenças, fora de contexto, podem acarretar. Uma das mais comuns é a famosa: “É melhor prevenir do que remediar”. Prevenir é importante, mas tem muita gente sofrendo de tanta prevenção. Deixa de viver tentando evitar o que teme da vida.

Prevenir é um trabalho sem fim! Quando se trabalha na prevenção, o olhar é dirigido para os perigos e para as possibilidades de algo dar errado. Tais riscos são infinitos e, nesse sentido, há sempre o que prevenir! Assim, muitas vezes, dedica-se à toa, achando que está sendo bem-sucedido na prevenção de algo que talvez não aconteceria de qualquer forma. Ou, então, aconteceria mesmo assim, mas não temos acesso à essa informação. A necessidade de agradar a todos se comportando de forma a evitar críticas é um exemplo comum disso. Esta prevenção tem custo elevadíssimo e está fadada ao fracasso.

Além disso, a insistência em não se expor aos riscos (mesmo àqueles que estão só na imaginação) alimenta o medo. Consequentemente, o indivíduo excessivamente prevenido percebe o mundo cada vez mais perigoso e se sente cada vez mais fraco e impotente. Tal quadro é muito presente em pessoas com transtornos de ansiedade e depressivos. Pessoas que vivem atentas aos perigos da vida (em estado de alerta) e investem a maior parte dos seus esforços em evitá-los conquistam mais alívios do que alegrias na sua trajetória. Fica difícil viver assim, não é mesmo?

Viver é arriscado! Disso não temos como fugir! Sabendo disso, que nenhuma regra impere indiscriminadamente: nem “viva o hoje” (sem pensar nas consequências para o amanhã), nem “é melhor prevenir do que remediar”. E, que sejamos capazes de refletir nas mais diversas situações do dia-a-dia o que realmente vale à pena prevenir, remediar ou deixar pra lá.

O que é Procrastinação?

Quantas vezes você adiou uma tarefa? Com que frequência você chega atrasado aos compromissos? Costuma deixar tudo para a última hora?
Não é à toa que existe o ditado: “Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”. Provavelmente todos nós já adiamos ou deixamos alguma tarefa para o dia seguinte. Mas, e quando esse comportamento se torna um hábito que traz prejuízos para a vida da pessoa? Nesse caso, passamos a discutir sobre procrastinação.

Procrastinação é o hábito de adiar coisas que precisamos fazer, dando inúmeras razões para justificar tal atitude (sendo elas frágeis ou até falsas). Deixa-se para depois o estudo, a consulta ao médico, o início de um regime alimentar, a declaração do imposto de renda, entre outros. As consequências desse tipo de ato são danosas, prejudicando a vida profissional, familiar e social. Aquele que não cumpre certas obrigações decepciona o outro, perdendo credibilidade e oportunidades. Além disso, o procrastinador se frustra consigo mesmo por não conseguir atingir os objetivos.

Há inúmeros fatores que levam alguém a adiar uma tarefa e/ou desenvolver um padrão procrastinador. A falta de autocontrole explica a maior parte delas. Isso ocorre porque as pessoas são mais sensíveis aos efeitos imediatos do seu comportamento e não às consequências tardias. Sendo assim, tarefas mais trabalhosas, desagradáveis, difíceis e com efeitos recompensadores a longo prazo, têm pouco controle sobre o comportamento do ser.

As orientações para a mudança de um hábito procrastinador são específicas para cada caso. É preciso investigar os motivos que levam alguém a esse ato. Contudo, algumas dicas são gerais e podem servir para a maioria das pessoas:
• Liste todas as atividades do dia;
• Faça uma escala de importância e urgência das atividades;
• Seja realista: crie metas possíveis de serem cumpridas. Alta expectativa e tempo insuficiente para a realização das mesmas aumentam as chances de frustrações e desistência;
• Utilize agenda e fique sob controle dela. Estabeleça dia, horário e tempo para realizar as tarefas;
• Identifique os motivos que o tira do foco e se conscientize deles;
• Aprenda a dizer não. Não deixe que a necessidade de agradar as pessoas o faça assumir responsabilidades que dificulte ou impeça a realização dos seus compromissos;
• Permita-se errar. Melhor feito do que perfeito. Portanto, faça!
• Se a tarefa é longa e cansativa, crie intervalos para descansar e recarregar as energias para voltar à tarefa;
• Vá riscando as atividades conforme as conclui. Isso é extremamente importante para monitorar o engajamento e avaliar o avanço na tarefa.

Em linhas gerais, é preciso saber planejar os compromissos, criar meios realistas para realizá-los e avançar aos poucos. A sensação de “missão cumprida”, em contraste ao mal-estar de um comportamento procrastinador que rumina o problema ou que não cumpre com os seus objetivos, é o que motivará uma mudança deste padrão comportamental.

O autoconhecimento na Orientação Profissional

O processo de Orientação Profissional (OP) realizado na adolescência tem como objetivo auxiliar o adolescente a fazer uma escolha consciente e madura da sua profissão. Para isso, abrange as áreas do autoconhecimento, informações sobre as diversas profissões e o mercado de trabalho, bem como a habilidade de escolher e tomar decisões. Dentro deste contexto, o autoconhecimento é diferente daquele explorado na psicoterapia, uma vez que ele é focado em especificidades que ajudam o orientando a fazer a sua escolha profissional, tais como identificação das suas habilidades, interesses, dificuldades e valores referentes ao mundo do trabalho.

A escolha profissional geralmente é o primeiro momento que o adolescente se depara com a responsabilidade de uma questão decisiva, que o faz refletir sobre sua identidade, seus valores, seus propósitos de vida. Exige pensar sobre quais caminhos pretende trilhar e o que anseia conquistar a médio e longo prazo.

A necessidade de refletir sobre estas questões pode ser angustiante para o adolescente. A liberdade de escolher requer muita responsabilidade. Além disso, a adolescência é uma fase que compreende a transição entre a infância e a vida adulta, caracterizada por uma série de mudanças físicas, cognitivas, emocionais e sociais. Portanto, é compreensível que os adolescentes apresentem um baixo autoconhecimento e se sintam perdidos e angustiados diante da escolha profissional.

Entretanto, à medida que o processo de OP avança, a ansiedade perante à escolha diminui e o adolescente se torna mais consciente de si, das suas possibilidades e responsabilidade pelo seu futuro. Assim, embora a promoção do autoconhecimento não seja o objetivo principal da OP, pode-se afirmar que é uma experiência que contribui expressivamente para este processo.

A habilidade de ouvir a um pedido de ajuda

Os episódios de suicídio e autolesão envolvendo o Jogo da Baleia Azul e a série da Netflix “13 Reasons Why” são a ponta do iceberg dos problemas vivenciados de forma calada por tantos adolescentes. Além disso, chamam a atenção para a existência de transtornos mentais na adolescência, tais como a Depressão e o Transtorno de Personalidade Borderline.

Diante deste cenário, as piadas em torno desse assunto e as alternativas sugeridas de punir esses adolescentes – como forma de resolução desses problemas – retratam o quanto a sociedade não está preparada para lidar com esta questão. Tais atitudes só agravam a situação, estigmatizando estes adolescentes, distanciando-os ainda mais de um pedido de ajuda efetivo e aumentando a sua vulnerabilidade em engajar-se em atividades que levem a desfechos de suicídio e automutilação.

Nesse sentido, primeiramente é preciso criar condições para que os adolescentes falem, isto é, ouvi-los. No entanto, ouvir de forma que possibilite o outro falar, requer uma habilidade aparentemente simples, mas que poucos possuem. É preciso parar para escutar, estar atento, buscar compreender sem julgar, acolher, ser empático e validar suas emoções.

Abaixo, exemplos de afirmações invalidantes:

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Vale ressaltar que não há sentimentos certos ou errados, nem sem motivos. Todos são legítimos. Ignorá-los não os anulam, apenas denigre quem os sente. Na dúvida, apenas escute e, de preferência, com o coração. A ajuda de um profissional também é de grande importância em situações como essa. O psicólogo pode não só auxiliar o adolescente que está em sofrimento como também orientar aqueles que o cercam sobre os manejos adequados nestas situações. Afinal, a vida de uma pessoa não é brincadeira!

Algumas verdades sobre a mentira: não se engane!

Em linhas gerais, mentir é dizer algo diferente do que se pensa, falar algo que não aconteceu, distorcer os fatos ocorridos ou enganar o outro. A mentira está presente no nosso cotidiano, seja quando mentimos ou somos enganados, podendo nos trazer sérios prejuízos.

Você já disse que estava tudo bem em um dia péssimo? Agradeceu um presente dizendo que gostou quando isso não era verdade? Rejeitou um convite dizendo que tinha compromisso mesmo com o tempo livre? Pois bem, a mentira não é necessariamente ruim. Há quem a defenda como necessária para a boa convivência social e importante para relações de afeto. Contudo, independente de quão inofensiva ou nociva seja uma mentira, sempre há uma intenção por trás desse ato: seja para fugir de uma punição, esquivar-se de um problema, obter alguma vantagem ou para infringir danos a outrem.

A gravidade da mentira depende das suas consequências tanto para quem mente quanto para quem é enganado. A frequência com que a pessoa mente também sinaliza outros problemas que podem ter relação com o contexto em que ela vive ou com suas dificuldades particulares, como o déficit de habilidades sociais, de enfrentamento e solução de problemas. Em níveis mais graves, a mentira pode indicar transtorno de personalidade antissocial.

Mas e quando praticamos o autoengano? Não querer enxergar a realidade tal como ela é e sustentar falsas justificativas para si, são meios de fugir de situações dolorosas e se esquivar de um enfrentamento. Tais atitudes não mudam a realidade, pelo contrário, podem até levar a escolhas e decisões que agravarão a situação. Parafraseando Friedrich Nietzsche, “a principal mentira é a que contamos a nós mesmos”.

Portanto, não se engane! Se a sua realidade te desagrada, entristece ou amedronta, é preciso primeiramente encará-la tal como ela é, para depois desenvolver as habilidades necessárias para mudá-la. A psicoterapia é uma importante aliada para te ajudar a lidar com as mentiras e os mentirosos da sua vida.

O que é Psicoterapia Analítico Comportamental?

Há muitos mitos e informações errôneas sobre o que um psicólogo faz no ambiente terapêutico. É ainda maior o desconhecimento e a confusão acerca das diferentes abordagens psicoterapêuticas. Em vista disso, meu objetivo aqui é explicar do que se trata a psicoterapia dentro do enfoque analítico-comportamental de forma simples e concisa.

A psicoterapia analítico-comportamental é baseada na filosofia do Behaviorismo Radical (radical remete à raiz, e não radicalismo como muitos pensam) e na ciência da Análise do Comportamento, formuladas pelo psicólogo americano Burrhus Frederic Skinner, que compreende o comportamento humano a partir da interação entre organismo e ambiente. Para Skinner (1957) “Os homens agem sobre o mundo e o modificam e, por sua vez, são modificados pelas consequências de sua ação”.

Dentro desta abordagem chamamos aquele que procura a psicoterapia de cliente, dando ênfase ao seu papel ativo no processo de mudanças. Portanto, para que a psicoterapia aconteça é imprescindível que haja comprometimento não só do terapeuta, mas também do cliente.

Entretanto, é comum e compreensível que as pessoas apresentem dúvidas sobre o seu papel no processo de psicoterapia. Além disso, em alguns casos a procura por este serviço é adiada devido à apreensão gerada pelas dificuldades em identificar ou expressar seus problemas. Contudo, vale ressaltar que é papel do psicoterapeuta explicar para o cliente sobre o funcionamento da psicoterapia já na primeira sessão e ajudá-lo na identificação e expressão de suas dificuldades.

O psicoterapeuta parte da investigação dos problemas trazidos pelo cliente através da Análise Funcional dos seus comportamentos, principal ferramenta de trabalho. São analisados junto com o cliente os seus sentimentos, pensamentos e comportamentos com o objetivo de identificar o que os provocam, controlam, motivam ou os cessam. Deste modo, o cliente desenvolve o seu autoconhecimento, tornando-se mais consciente dos fatores que controlam suas atitudes.

A partir dessas análises funcionais é possível identificar quais são as intervenções necessárias e possíveis a serem realizadas visando atingir os objetivos terapêuticos definidos pelo terapeuta e pelo cliente. De forma mais ampla, busca-se por meio da mudança de comportamento do cliente alterar o ambiente em que ele vive em prol da sua qualidade de vida. Para isso, comumente é necessário que o terapeuta promova o desenvolvimento de algumas habilidades no cliente, tais como a de efetividade na comunicação interpessoal e a de regulação emocional.

Deste modo, a psicoterapia beneficia não só aqueles que apresentam uma psicopatologia. É possível também auxiliar todos aqueles que querem mudar de atitude e modificar as contingências da sua vida em busca de uma vida mais plena e saudável.

Foto Crédito: jeffcutler

Eu me declaro culpado.

Eu me declaro CULPADO!

Se não bastasse o acúmulo de atividades que temos que nos ocupar, somos muitas vezes acometidos pelo sentimento de culpa de cada dia: quando se chega atrasado, chateia um amigo ao negar-lhe um pedido, não comparece ao casamento de um familiar, fala coisas que chateiam um colega, fica pouco tempo com os filhos, compra um vestido caro, não dá um troco para o mendigo, cobra a dívida do tio, acorda mais tarde, falta à aula de inglês, etc.

Não estou aqui para julgar se tais atitudes são adequadas ou não, mas sim refletir o porquê de tantas culpas serem carregadas gratuitamente, isto é, o motivo pelo qual muitas pessoas se sentem tão culpadas ao se comportarem de forma assertiva. Mas de onde vem este sentimento de culpa se não há pelo que se culpar?

Eu me declaro culpadoO sentimento de culpa ocorre quando a pessoa julga seu próprio comportamento como inadequado e espera a punição por este ato. Esta avaliação é feita baseada nos ensinamentos provenientes das relações estabelecidas com pessoas importantes do nosso convívio, ao longo de nossas vidas. Aprendemos não só através do que é dito por essas pessoas, mas principalmente a partir das sanções sofridas quando agimos de forma não aprovada por elas.

Deste modo, a classificação do que é adequado ou inadequado não é uma verdade absoluta, mas subjetiva, passível de erro. Em algumas situações, aqueles que nos ensinaram poderiam estar equivocados sobre seus julgamentos. Em outras, o objetivo era fazer com que nos comportássemos de modo a beneficiar quem ensinava. Lembro-me de uma cena comum: a criança se opõe a fazer alguma coisa e o adulto diz “Que feio! Se você não fizer isso eu vou ficar triste, vou chorar”. Apesar de aparentemente ser uma situação de pouca importância, trata-se de uma forma de obter controle sobre a criança. Em muitas situações este controle é vantajoso somente para o adulto.

E nos dias de hoje? Será que as pessoas do nosso convívio ainda fazem isso conosco? Relações de controle estão presentes na nossa vida o tempo todo. À medida que crescemos continuamos a aprender de formas similares, mas mais sutis, sobre o que devemos ou não devemos fazer e quando não agimos de forma “adequada” sofremos sanções.

Além do aprendizado de como nos sentirmos culpados, aprendemos também como agir para minimizar ou se livrar deste sentimento, no mínimo incômodo. Muitas pessoas buscam alternativas para reparar ou compensar o “erro” que supõem ter cometido, como pedir desculpas a uma pessoa “abusadora” por ter dado limites a ela ou dar presentes em demasia para os filhos para poder compensar a sua ausência. Nestes casos há um alívio momentâneo, mas não há nenhuma reparação e outros problemas podem ser gerados. Ainda, há a atitude adequada, julgada de forma errônea como inadequada, passa a ser evitada prejudicando a própria pessoa.

Por fim, sentir-se culpado diante de uma falta e refletir sobre o erro cometido visando uma mudança de atitude pode ser de grande valia para o amadurecimento do ser humano. Porém, primeiramente é preciso avaliar o código seguido pelo juiz que habita dentro de cada um de nós.